quarta-feira, 6 de julho de 2016

Parto da Lívia Bernardes - Nascimento da Melissa em 25/05/2015

Um parto dos sonhos, lindo, rápido e perfeito. Bebê linda e saudável. Depois é que a situação ficou bem séria. Lívia ainda diz: "Se eu faria de novo? claro que sim" então, pra ela tudo valeu à pena. Olhar com os olhos do coração, se entregar e confiar. "Entrega, confia, aceita e agradece".
Relato da Lívia:



Meu VBA2C
A Melissa é minha terceira filha.
Quando engravidei pela primeira vez, não me preparei para um parto normal. Eu nem sabia que precisava disso! Para mim esse era o desfecho natural de toda gravidez saudável. Na época eu ainda acreditava que cesárea fosse para quem precisasse ou no máximo, quem escolhesse; e esta não era uma opção pessoal. Com 37 semanas, o último ultrassom mostrou meu bebê sentado: bebê pélvico nasce de cesárea. A segunda cesárea foi por repetição: uma vez cesárea sempre cesárea.
O terceiro filho era um desejo. Pesquisei, li e estudei muito sobre parto normal após cesárea. Assisti documentários, vi muitos partos no youtube e li muitos relatos. Todos me emocionavam. Chorei muito assistindo vídeos de partos naturais/humanizados. Chorava de emoção, mas também pela dor que tomava meu coração por não ter vivido um momento assim com meus bebês!
Engravidei! Viva!! 


Já sabia que eu queria uma equipe humanizada. Mais que um parto vaginal eu queria um parto com respeito. Comecei o pré-natal super empolgada. Minhas gestações são muito tranquilas, tudo dentro do padrão, e só duas questões me preocupavam: a placenta e o SIAPARTO. Fui diagnosticada precocemente com placenta baixa. Como meu caso tinha fatores de risco aumentado, me preocupei bastante. Já o SIAPARTO coincidia com a minha 40ª semana de gestação e as minhas obstetras estariam lá!
Com 30 semanas a placenta estava instalada favoravelmente ao parto normal e deixou de ser uma preocupação. Com o SIAPARTO se aproximando eu precisava de um plano B, caso minha gestação se estendesse. Encontramos outro médico que ficaria em Uberlândia e que topou me atender. Sinceramente, eu tinha tanta confiança e convicção que daria certo que cogitei até com plantonista. Com tudo resolvido era só esperar o grande dia.
Ele chegou com 39+4 semanas na noite do dia 24/05/2015 sem rodeios. Era um domingo especial espiritualmente falando para mim. Fiz tudo que deveria ter feito durante o dia e a noite, fui a Igreja. Apesar de estar super bem e animada, durante o culto, comecei a sentir um desconforto na lombar. Com todo o peso e a barriga enorme não dei muita importância. Cheguei à casa da minha mãe por volta de 21h e li uma mensagem da Juliana (uma amiga e apoiadora da causa) perguntando se tinha algum sinal. Respondi que nada ainda. Logo em seguida, senti uma pontada na barriga como se fosse um espasmo. Passou rápido e então fui para o quarto. Quando sentei na cama senti um liquido escorrer. Primeiro, pensei que fosse xixi. Fui ao banheiro e esvaziei a bexiga; quando levantei houve um novo “vazamento”. Avisei minha mãe e ela logo falou: - É a bolsa! Um misto de emoção e ansiedade tomou conta de mim! Fiquei com medo de acreditar e ser um “alarme falso”. Pedi pra minha mãe um absorvente para “vigiar” o líquido. Estava clarinho, límpido e inodoro e os vazamentos continuavam pouco a pouco. Enquanto isso minha mãe preparava o jantar.
Eu me preparei para esse dia!! Queria aproveitar tudo!!  Imaginei que passaria a madrugada em trabalho de parto e fui jantar; parecia que eu estava com medo de passar fome! Jantei e as dores começaram; senti uma contração bem dolorida e meu corpo tremeu como se eu estivesse com muito frio. Por volta de 22h30 avisei a Kelly, minha doula, que a bolsa tinha rompido e ela me orientou descansar, tentar dormir, ficar calma, chá de camomila e chuveiro. E é claro que eu segui o script. Pensei que teria uma noite de bajulação com a Kelly, meu esposo e minha mãe cuidando de mim.
Cheguei em casa por volta de 23h e avisei a Dra Silvia, minha obstetra. Fui para o chuveiro com contrações já bem doloridas e bem próximas uma das outras. Minha filha mais velha me acompanhou para tentar cronometrá-las. Estavam com menos de 5 minutos e duravam mais de 40 segundos. Saí do chuveiro, tentei deitar na cama e fiquei uns 15 segundos; levantei e esmurrei meu colchão nessa hora de tanta dor.
Enquanto isso, minha mãe falava para irmos para o hospital, que meu TP estava avançado. Mas eu não acreditava...achava que demoraria mais. 10cm precisa de tempo!! Comecei a sentir enjoos e coloquei pra fora todo meu jantar. Liguei pra Silvia pra contar como eu estava e ela sugeriu que fossemos para o hospital. Quando estava com ela no telefone tive o primeiro sangramento. Liguei pra Kelly e falei pra ela que estava indo para o hospital por orientação da Silvia para ela ir também. Minha ligação para a Kelly foi as 23h53. Pegamos as malas e fomos para o hospital. Nesse horário não tinha trânsito e foi super tranquilo e rápido chegar no Santa Clara.
Quando cheguei a Silvia já estava lá. Me abraçou gostoso e fomos para o consultório do pronto socorro para ela me examinar. Eu sentia muita dor nessa hora. Ela com toda calma e paciência me disse que quando eu estivesse preparada ela faria um exame para sabermos o andamento do TP. Quando consegui, sentei na banqueta, ela examinou e me disse: - Você está com 9cm! Hã? O que?? Já?? Como assim?? Então eu já posso falar para que eu inventei isso?? Nesse momento eu sentia muita dor, mas o que incomodava mesmo era a vontade de fazer o número 2..rsrs
O enfermeiro chegou com uma cadeira de rodas e eu não quis sentar. Era impossível. Preferi ir caminhando até o centro cirúrgico e uma enfermeira me acompanhou. O hospital estava em silêncio; não havia movimento naquele momento. Passamos na sala de pré-parto para colocarmos as roupas. Meu marido entrou logo em seguida.
As enfermeiras prepararam o centro cirúrgico. Arredaram a maca, jogaram um lençol no chão e deixaram alguns a nossa disposição.
Durante as contrações fiquei a maior parte do tempo em pé. Mexer o quadril aliviava bastante, e no momento da contração eu agarrava meu esposo. Agarrava e dependurava no pescoço dele. A Silvia foi falar com o pediatra de plantão, porque não daria tempo de chamar o que eu queria.  Tive uma grata surpresa em saber que o pediatra de plantão daquela noite era o neonatologista que eu queria e pediatra das minhas filhas mais velhas!! Eu não havia conversado com ele sobre a humanização do nascimento, e acho ele até muito conservador para isso, então deixei pra falar no parto mesmo, o que eu queria e o que eu não queria.  De todo jeito eu confio e gosto do jeito dele!! Ele chegou na porta do centro cirúrgico e pela janela de vidro eu pude vê-lo. Chamei-o para entrar, mas ele preferiu ficar esperando de fora; mandei um beijo pra ele nessa hora...
A Kelly também chegou. Quando a vi na porta do centro cirúrgico com uma bola de pilates só pensei uma coisa: como foi que ela conseguiu entrar aqui com essa bola desse tamanho? (A Maternidade é bem conservadora). Fiquei muito feliz em vê-la, afinal a equipe estava completa.  A Sala estava à meia luz, temperatura ambiente e uma música bem suave ao fundo.  As músicas eram as mesmas que passei a gravidez ouvindo. Tudo preparado com cuidado pela Kelly, já que eu e meu esposo já não pensávamos em mais nada nesse momento.  A Kelly fazia massagens na minha lombar e pressionava meu quadril para ajudar a aliviar as dores. A bola de pilates eu não usei. Quando senti vontade, sentei na banqueta.
 
 



Foi tudo muito rápido e intenso. Meu marido se posicionou na minha frente e quando sentia contração me apoiava nele. A Silvia fez uma ausculta e estava tudo bem com o bebê. Outras contrações e a Melissa se aproximava cada vez mais. Agarrava meu marido. Vocalizava. Em uma das contrações me lembro de ele e a Kelly pedir para eu respirar. Respirei fundo. Coroou. A Silvia me perguntou se eu queria por a mão e eu não quis. Fiquei com medo de encucar e desandar. Lembro-me de ter me concentrado nessa hora para entender onde a Melissa já estava. Senti arder. Mais uma contração forte, senti meu corpo tremer e escutei a Silvia: Nasceu!
Peguei-a das mãos da Silvia e aconcheguei no meu peito. Abracei. Olhei os detalhes daquele corpinho todo molhado e quentinho. Comemorei muito! “Filhaaa, nós conseguimos!! Amor, ela é perfeita!! Filha, você é linda! Seja bem-vinda, Melissa!!”  Era segunda-feira,  1h33 do dia 25/05/2015.
 




 

O parto perfeito. O sonho realizado.
Naquele momento eu me sentia muito forte. Poderosa. Estava em estado de graça por ter realizado meu sonho. Viver esse parto era um desejo antigo e foi uma experiência incrível. Mas também teria suas surpresas.
Sem saber quando terminou minha comemoração, acordei deitada no chão com as pernas elevadas. Desmaiei. Acordei com a Silvia massageando meu abdômen e fazendo a dequitação da placenta. A Melissa foi levada para exames nessa hora.  Senti um pouco de cólica, frio e cansaço, mas pra mim estava tudo bem!! Tentei levantar e desmaiei de novo. Fiquei apagada alguns segundos e acordei. A Silvia pediu para que eu não fizesse nenhum esforço e que eles me carregariam. Fui colocada na maca e fui para a sala de observação.
Eu estava muito feliz!! A Melissa chegou e mamou super bem. Nasceu com 3235g e 49cm e apgar 9/10. Ficamos conversando e comemorando enquanto preparavam o quarto. A Sílvia acompanhava meus sinais vitais com bastante frequência e observava o sangramento.
O quarto ficou pronto e fomos pra lá. Minhas filhas e minha mãe entraram para ver a Melissa. Eu estava tão feliz pensando em tudo que havia passado naquele dia; que apesar da dor intensa eu tinha realizado meu sonho e ia sair dali rapidinho, receber visitas, andar, me sentir inteira, contar e recontar meu parto pra todo mundo!!
Mas a Sílvia pediu pra que minha mãe levasse as crianças para descansar. Quando saíram do quarto ela conversou comigo. Meu sangramento já tinha se estendido e que ela precisava fazer um exame e ver se meu útero não tinha rompido. Me lembro de perguntar se já não havia mais nada que pudesse ser feito. Ela disse que não e eu disse: - Então, faça o que precisar fazer! Ela conversou com o Wender(esposo) e me levou para o centro cirúrgico. Tomei uma raqui para fazer o exame. Meu útero rompeu.
Eu estava tranquila e não sentia dores. Às vezes, sentia enjoos.  Como eu já conhecia a cirurgia - que é como uma cesárea- e já tinha tido meu parto, isso não era um problema. Fomos para a sala de cirurgia e comecei a sentir a tensão no ar. A Silvia, com muita serenidade, me tranquilizava. Em um determinado momento a vi com olhar fixo como se tivesse se concentrando para a batalha...Perguntei do meu útero e ela me disse que daria tudo certo! Na verdade, eu queria dar o aval se ela precisasse fazer uma histerectomia.
Tomei anestesia geral para essa cirurgia. Houve um desconforto no rosto e eu dormi. Quando acordei minha obstetra disse que iria me colocar na UTI para que eu pudesse me recuperar melhor e mais rápido e que faria de tudo para que eu ficasse lá só o tempo necessário. Eram mais ou menos, 6 da manhã. Eu pensei em 12 horas, o médico da UTI em 24. Na minha cabeça ainda estava tudo bem, como eu falei, eu estava em estado de graça!
Mas na verdade, nada disso é o que pensamos quando escolhemos um Parto Humanizado. Além da via, você quer o contato imediato, quer parir sua placenta espontaneamente, quer o campleamento tardio do cordão com todo ritual do pai da criança pra cortá-lo, quer amamentar, quer tirar fotos da placenta, da equipe...
As horas na UTI foram lentas; demoravam a passar. A equipe médica cuidava de mim com muita dedicação e carinho. Em nenhum momento houve falta de respeito ou julgamento. O cuidado de fato era intensivo. Só a posição era ruim. Tive de ficar deitada sem nenhuma inclinação na cabeça e isso me incomodava bastante. Fiquei com muita dor nas costas.
Foi necessário fazer transfusão. Eu perdi muito sangue antes e durante a cirurgia. Minhas mãos ficaram inchadas, minhas unhas estavam amarelas como se não tivessem uma gota de sangue (literalmente). Toda hora tinham picadas e agulhadas para novos exames. Fiquei com os braços roxos.
Recebi visitas. Meu marido estava pálido de preocupação. Mas eu ainda tinha muita ocitocina. Em nenhum momento pensei que sairia sem vida dali. Eu sei que não foi fácil pra quem pôde me ver e também para a equipe. Foi um momento único para nos conectarmos com Deus!
Recebi notícias da Melissa. O pai ficava com ela no berçário. Ela chorava e não aceitava outro leite. Eu já estava preocupada querendo amamenta-la. 24 horas depois tive alta. Começou a preparação para me levarem para o quarto. Ao tentar levantar para tomar banho, não consegui porque ainda me sentia fraca. Fui de cadeiras de rodas com muita dor. Por causa do horário da liberação da UTI, até que consegui voltar para o quarto foram 30 horas longe do meu “cute”.
Quando cheguei no quarto, levaram a Melissa pra mim. Ela pegou o peito e mamou como se não tivéssemos ficado separadas. Agora sim poderíamos ficar juntinhas. Como ela já tinha ficado tempo demais longe de mim, as enfermeiras fizeram questão de mantê-la comigo. Muito cuidadosas, fizeram de tudo para garantir meu conforto. Comecei a receber visitas. Eu sou do tipo que quero contar tudo pra todo mundo e já me sentia bem. Respondi todas as mensagens do whatsapp, mas notei que minha cabeça começou a doer. Doía de uma maneira que nunca havia sentido. Meu corpo tremia todo quando eu ficava um tempo em pé. O tempo de ir ao banheiro fazer xixi era suficiente para sentir calafrios. Novos exames e um dos resultados apontou anemia forte. A Dra Sílvia solicitou mais uma bolsa de sangue para reforço enquanto tentava entender minha dor de cabeça. Essa dor era esquisita. Só doía quando eu sentava ou levantava. Se estivesse deitada não sentia nada. Isso me deixava irritada!! Por causa desta dor de cabeça e da anemia fui ficando no hospital. Sempre fazendo novos exames e mais bolsa de sangue! Meu sangramento começou a ficar ralinho, aguado. A Silvia ficou preocupada e pediu pra fazer um novo exame. A suspeita era que pudesse ter perfurado minha bexiga e ter uma comunicação com o útero. Passamos a sonda e, Graças a Deus, foi só um susto. Tudo certo com isso, mas sinceramente, quanta provação! Confesso que chorei. Pela primeira vez eu confessei pra mim mesma que não era assim que eu tinha imaginado!! Não era assim que eu queria e não era assim que eu sonhava!!
Mas a dor de cabeça me irritava profundamente e após uma conversa com o anestesiologista identificaram que eu estava com cefaleia pós-raqui. Gente, pensa numa dor terrível! Eu preferiria mil partos a sentir essa dor de cabeça de novo!!  Com o diagnóstico, também veio o alívio. Um remédio certeiro foi indicado e as coisas começaram a se acertar. Antes, eu cheguei a dizer que se fosse pra continuar com aquela dor eu queria ser dopada, dormir até ela acabar, o que é previsto em 7 dias...